terça-feira, junho 22, 2004

Mais uma viajem minha ...

HUNF !!! Porque as pessoas tem que reclamar de algo que é seu ? Peraí. Deixa eu explicar. Tava ouvindo uma conversa entre um senhor e (acho eu) sua senhora. Metendo o pau na cidade de São Paulo pelo motivo de confusão, poluição e violência. E (pelas aparências) eles eram paulistanos. Falando mau mesmo. Xingando. Do tipo que se xinga mãe de juíz de futebol.
Caramba, to ligado que a cidade é f..., tem seus problemas. Mas é a nossa cidade. Agente constrói ela. Todo dia !
Já imaginaram e pararm para pensar - na verdade sentir - o cheiro de São Paulo?
Odor único. Singelo. Tudo bem, São Paulo pode ser comparada sim com uma pérola - não pelo fato de ser redonda e brilhante, porque isso não é mesmo - mas pelo fato de (realmente) parecer um troço coberto de secreções misteriosas de um molusco doente. Há cidades maiores. Há cidades mais ricas. Com certeza há cidades mais bonitas. Mas nenhuma cidade em todo Universo ganha de São Paulo em termos de cheiro. Falem de mendigos. Falem de alho. Falem da França!!! Falem a vontade. Mas se a pessoa não aspirou o ar de São Paulo em dia de calor, não sabe o que é cheiro. Tem habitantes mais apaixonados que se orgulham. Tipo: no interior, nas tardezinhas mais agradáveis, levam cadeiras para fora a fim de aproveitar o "aroma". Inflam as bochechas, batem no peito - a fim de voltarem a respirar normalmente - e comentam com alegria as novidades. Quem viaja muito e fica muito tempo sem visitar a cidade, quando sente o cheiro, sempre acaba com lágrimas nos olhos. É o tipo de efeito que surte. Aliás, só existe uma maneira de descrever o efeito que o odor de São Paulo surte no nariz do visitante, e é por analogia:
Pegue um pedaço de tecido escocês. Espalhe confete. Ilumine com flashes rápidos. Agora pegue um camaleão. Ponha o camaleão sobre o tecido escocês. Observe com atenção. Está vendo?
É isso.
Poetas já tentaram descrever São Paulo. Não conseguiram. Talvez seja a energia do lugar, ou seu impressionismo. Provavelmente deve ser porque uma cidade com mais de 10 milhôes de pessoas e - praticamente - sem esgoto seja demais para os poetas, que em geral preferem margaridas. São Paulo é uma metrópole grande. Talvez até demais. O ar de São Paulo é quase como se tivesse vida. A cada respiração é impossível não notar que milhares de pessoas estão por perto. E que quase todas tem sovaco. Digamos apenas que São Paulo é tão cheia de vida quanto queijo velho em dia de calor, tão ruidosa quanto palavrão em Igreja, tão iluminada quanto mancha de óleo em superfície de água azul, tão colorida quanto um hematoma em pele clara e tão alvoroçada e ativa quanto cavalo morto em formigueiro.
Vagando pela cidade você encontra as coisas mais singulares. Há templos - ocultos - mas de portas abertas que enchem a rua com o som de gongos, sinos, e, no caso das religiões mais fundamentalistas e ocultistas, os breves gritos de suas vítimas(Humanos ou não). Há lojas cujas estranhas mercadorias - e bota estranho nisso - se espalham pelas calçadas o tempo todo e impedem o deficiente físico de ter uma vida longa. Em algum lugar de São Paulo, o comércio deixa de ser camelô e passa a se chamar de estabelecimento comercial. O comerciante estrangeiro que vem de outro estado não consegue dormir nas primeiras semanas imaginando o dinheiro que está deixando de ganhar. Um breve passeio noturno no centro e você descobre muitas jovens simpáticas aparentemente sem dinheiro para se vestir. São Paulo é assim por causa de sua planície um pouco irregular, fronteiras com outros estados sem graça que serpenteam como cobras, antigos pactos de casamento, complexas alianças, e sobretudo, ocasionais erros de cartografia que LHE deu essa configuração política de terra. Extremamente singular.
Para completar - como se a glória e o odor de São Paulo precisasem de mais ajuda para sua reputação - temos ainda o Tietê! Tietê que além de rio, é também um grande necrotério da cidade. A Natureza é tão boa com nós, paulistanos, que prestes a entrar no território de São Paulo o rio já se mostra lento e pesado. Quando alcança São Paulo de fato, até um ateu pode atravessá-lo andando. É o rio que é extremamente difícil de se afundar, mas bem fácil de se sufocar. Ainda acho que é um rio puro. Extremamente puro. Porque parto do princípio que um rio composto em grande parte por líquidos que passaram já por mais de uns 1000 rins tem que ser puro. Não tem como não ser.
Outro fato que torna São Paulo A Cidade, é que a única diferença entre o dia e a noite é a iluminosidade. Mas cientistas renomados afirmam que em menos de 10 anos a noite serám mais luminosa que o dia. Eu confio neles.
E entre o dia e a noite tem a tarde. Tão famosa quanto pôr-de-Sol em Veneza, mas bem mais romântica.
No fim de toda tarde você pode ver a mesma rotina: Os mercados lotados de gente, os pedestres (aventureiros do sexo masculino) começando a disputar senhas nas áreas das vagabundas (na minha opinião, singelas damas), os perdedores das "eternas lutas bizantinas das tão cultuadas novas gangues" afundando em silêncio nas águas geladas do Tietê com chumbos amarrados nos pés - porque só assim afundam -, negociantes respeitáveis e essenciais (extremamente essenciais) de delícias ilegais realizando suas vendas, assaltantes que estão prontos para começar mais um dia de labuta, facas que começam a reluzir em becos escuros .. e asim por diante.
Essa é São Paulo. Única. Uma poça de vômito do lado de fora da lanchonete 24 horas da História. Mas mesmo assim, NOSSA poça de vômito. Portanto, não falem mau dela!!!