quinta-feira, maio 19, 2005

"Será que vou... acariciar na plenitude dos lençóis brancos a carne branca plena que se inclina suave, tocar a umidade florida das axilas, os elixires e os licores e as florescências da carne, entrar na existência de outrem, nas mucosas vermelhas com o forte, doce, doce odor de existência, me sentir existir entre os suaves lábios molhados, os lábios vermelhos de sangue pálido, os lábios palpitantes que bocejam todos molhados de existência, todos molhados de pus claro, entre os lábios molhados açucarados que lacrimejam como olhos? Meu corpo de carne que vive, a carne que fervilha e mexe suavemente, licores, que mexe creme, a carne que mexe, mexe, mexe, a água doce e açucarada de minha carne, o sangue de minha mão, dói-me, suave em minha carne pisada que mexe, anda, eu ando, fujo, sou um ignóbil indivíduo com a carne pisada, pisada de existência contra essas paredes."
Sartre - A Náusea